Marrocos teve a maior comunidade judaica do Norte de África: cerca de 265 mil pessoas em 1948, perto de 10% da população. Hoje restam poucos milhares — a maioria em Casablanca — mas a herança está viva: mellahs, sinagogas, cemitérios e o único museu judaico do mundo árabe.
A história judaico-marroquina é das mais antigas e densas do Mediterrâneo — e das mais visíveis para quem viaja com atenção: em Marraquexe, Fez ou Essaouira, o bairro judeu fica sempre a poucos passos do roteiro habitual. Vale a pena conhecer a história antes de lá entrar.
Uma presença com dois mil anos
A presença judaica em Marrocos remonta à Antiguidade — há referências que apontam para o século I d.C., e a tradição fala de mercadores judeus ativos nas rotas do ouro desde tempos ainda mais recuados. Com a chegada do Islão ao Magrebe no século VII, as comunidades judaicas mantiveram-se como «gentes do Livro», com estatuto próprio, períodos de prosperidade e períodos difíceis, ao sabor das dinastias.
O grande ponto de viragem veio de fora: em 1492, os Reis Católicos expulsaram os judeus de Espanha (e Portugal seguiu-lhe o exemplo em 1496). Dezenas de milhares de sefarditas atravessaram o Estreito e refizeram a vida em Fez, Tetuão, Salé ou Essaouira — trazendo ofícios, línguas (o haketia, o judeo-espanhol do norte de Marrocos) e redes de comércio que enriqueceram o reino.
O que é um mellah?
O mellah é o bairro judeu murado das cidades marroquinas — com porta fortificada própria, fechada à noite, simultaneamente proteção e separação. O primeiro foi criado em Fez, na primeira metade do século XV, junto ao palácio real — a proximidade ao sultão era uma garantia de segurança. Seguiram-se mellahs em Marraquexe, Rabat, Tetuão, Essaouira e em quase todas as cidades importantes.
Em Marraquexe, o mellah conserva a praça, as varandas de madeira — uma raridade na arquitetura da medina — a sinagoga Slat al-Azama (século XVI, fundada pelos expulsos de Espanha) e o grande cemitério judaico de campas brancas, que se visita. Em Fez, o mellah fica ao lado do Palácio Real, no bairro de Fes el-Jdid.
1948: o princípio da grande partida
Em 1948, ano da criação do Estado de Israel, viviam em Marrocos cerca de 265 mil judeus — a maior comunidade do Norte de África. As tensões que se seguiram, incluindo os tumultos mortais de Oujda e Djerada nesse mesmo ano, abriram a era da emigração em massa. A independência de Marrocos, em 1956, travou a saída por algum tempo; por volta de 1959, as atividades sionistas foram ilegalizadas e a emigração passou a fazer-se de forma clandestina, em vagas sucessivas ao longo das décadas seguintes.
O resultado é uma das maiores diásporas relativas do mundo judaico: estima-se que perto de um milhão de israelitas tenham origem marroquina — a música, a gastronomia e as festas marroquinas são hoje cultura popular em Israel — além das comunidades radicadas em França, no Canadá, nos EUA e no Brasil.
A comunidade hoje
Vivem atualmente em Marrocos poucos milhares de judeus, a maior parte em Casablanca, onde funcionam sinagogas, escolas e o notável Museu do Judaísmo Marroquino — fundado por Simon Levy, é o único museu judaico do mundo árabe, com coleções de fotografia, objetos rituais e reconstituições de sinagogas. Em Marraquexe, a pequena comunidade mantém a Slat al-Azama ativa.
A tradição das hiloulas — peregrinações aos túmulos de santos judeus — continua bem viva: todos os anos, judeus de origem marroquina regressam de todo o mundo ao santuário de Amran Ben Diwan, um venerado rabino sepultado há mais de dois séculos perto de Ouazzane, a norte. É um traço fascinante da religiosidade marroquina: também os muçulmanos veneram os seus santos locais, e as duas tradições sempre se espelharam — explicamos esse contexto na página sobre a religião em Marrocos.
Onde visitar a herança judaica
- Marraquexe — mellah, sinagoga Slat al-Azama e cemitério judaico (Miâara);
- Fez — o mellah de Fes el-Jdid, o primeiro de Marrocos, com as suas varandas e o cemitério branco;
- Casablanca — o Museu do Judaísmo Marroquino e as sinagogas ativas;
- Essaouira — a cidade que chegou a ter dezenas de sinagogas e uma das maiores proporções de população judaica do país;
- Ouazzane — o santuário de Amran Ben Diwan, centro da hiloula anual.
Nas nossas viagens privadas incluímos, a pedido, um roteiro da herança judaica — mellahs, sinagogas e museus com guia que conhece a história por dentro.
Perguntas frequentes
O que é um mellah?
O bairro judeu murado das cidades marroquinas, com porta própria — o primeiro nasceu em Fez, na primeira metade do século XV. Os de Fez e Marraquexe visitam-se livremente.
Quantos judeus vivem hoje em Marrocos?
Poucos milhares, sobretudo em Casablanca — contra cerca de 265 mil em 1948, quando era a maior comunidade do Norte de África.
Porque saíram os judeus de Marrocos?
Em vagas após 1948, com a criação de Israel, os tumultos de Oujda e Djerada e as restrições de 1959 ao sionismo. Perto de um milhão de israelitas têm hoje origem marroquina.
O que se pode visitar?
Os mellahs e cemitérios de Marraquexe e Fez, a sinagoga Slat al-Azama, o Museu do Judaísmo em Casablanca e o santuário de Amran Ben Diwan, perto de Ouazzane.
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