Presença portuguesa em Marrocos – Uma história em comum

HISTORIA PORTUGAL MARROCOS
HISTORIA PORTUGAL MARROCOS

Portugal ocupou militarmente zonas que hoje são parte do reino de Marrocos entre 1415 e 1769, um longo período de 354 anos, de guerra constante, já que a presença portuguesa nunca foi aceite.

Guerra de Alcácer Quibir em Marrocos
Guerra de Alcácer Quibir em Marrocos

Portugal e Marrocos têm uma história comum muito forte.

Cinco anos depois do abandono do ultimo baluarte, Mazagão, os reinos de Portugal e de Marrocos assinaram um tratado de paz coroado de êxito, já que daí para cá nunca mais houve hostilidades entre os dois países.

As relações esfriaram bastante durante a guerra que Portugal manteve nas suas antigas colónias, entre 1961 e 1974, devido ao apoio que Marrocos prestou aos movimentos que se nos opunham.

Foi no tempo de D. João I, em 1415, que Portugal se lançou à conquista de Ceuta, utilizando 19.000 soldados, 1700 marinheiros e cerca de 200 navios.

Em 1437 organizou-se nova expedição, que pretendia conquistar as cidades de Tanger e Arzila, que acabou em desastre militar.

Para que as forças portuguesas fossem autorizadas a reembarcar aceitaram o compromisso de devolver Ceuta, ficando o príncipe D. Fernando como refém.

Como se sabe, os portugueses não cumpriram a sua palavra, e D. Fernando acabou por morrer no cativeiro, em Fez.

Em 1458 conquistou-se a praça de Alcácer Ceguer, sensivelmente a meio caminho entre Ceuta e Tanger.

Em 1453, nova tentativa de conquista de Tanger, sem êxito.

Já em 1471 tomou-se a praça de Arzila. Os habitantes de Tanger viram-se encurralados pelos portugueses, entre Arzila e Alcácer Ceguer, tendo optado por abandonar a praça, que acabou assim por ser tomada sem combates.

Passados uns anos, em 1515, organizaram-se expedições que pretendiam construir fortalezas na zona de Casablanca, em locais referidos como “Mamora e Anafe”.

Foi um desastre, em que tudo se perdeu, perante o ataque dos locais.

Nos anos seguintes os portugueses vieram a instalar-se mais para sul, em Azamor, Mazagão (El Jadida), Safi, Aguz (Souira Kédima), Mogador (Essauira) e Santa Cruz do Cabo de Gué (arredores de Agadir).

Foi este o ponto culminante da nossa presença, que não se pôde manter, já que em 1541 esta ultima praça perdeu-se num combate em que os portugueses foram chacinados, e logo no ano seguinte se abandonou Safi.

A decadência prosseguiu com a nossa saída de Arzila em 1549 e de Alcácer Ceguer em 1550. Já em 1525 os marroquinos tinham recuperado Mogador.

Para além de derrotas militares, razões de ordem financeira estiveram na base de vários abandonos, nomeadamente Safi e Azamor, sendo que nesta época os recursos militares e económicos portugueses já se tinham virado para outras bandas, o oriente, e tais recursos foram sempre escassos.

O historiador Oliveira Martins descreve esta ocupação da seguinte forma: “uma série de praças-fortes, escola de soldados, fonte de permanentes conflitos, estéril em proventos, pasto para a vã necessidade batalhadora da nação.

Precipício aberto, que ia tragando, improfícua e ingloriamente, muitas forças vivas do país”.

E prossegue: “as campanhas de África eram uma série de empresas quixotescas, que viriam a terminar pela doidice varrida de D. Sebastião”.

Outro autor escreveu “a Berbéria não era presa fácil para ninguém. Embora enfraquecida, débil na navegação e na guerra marítima, pobre e de tecnologia militar inferior, tinha forças que bastaram, ao longo dos séculos, para conter os intrusos e para os constranger a viver no cheiro da maresia.”

Cidade de Essaouira em Marrocos
Cidade de Essaouira em Marrocos

Efectivamente a ocupação portuguesa consistia na presença em fortalezas junto á costa, com domínio exclusivo do que estava à vista, e sempre com ligações por mar. Todas as tentativas para ocupar o interior redundaram em derrotas.

Para além do famoso desastre de Alcácer Quibir outros houve, como em 1515, quando um exército português de 3.000 homens tentou atacar Marraquexe.

Também os espanhóis tentaram a conquista, a partir da costa mediterrânea marroquina, e não conseguiram avançar.

Na sequência do desastre militar de Alcácer Quibir, Portugal veio a perder a independência, até 1640. As fortalezas portuguesas espalhadas pelo mundo, com comandantes portugueses, aderiram à restauração, o que nos permitiu conservar as praças de Tanger e Mazagão. Em Ceuta, o comandante era um espanhol, e assim perdemos a cidade, que curiosamente ainda hoje tem o escudo português, o das quinas e castelos, na bandeira da cidade.

Tanger foi pouco depois doada aos ingleses, como parte do dote de uma princesa portuguesa, a troco de apoio político e militar.

Sobrou Mazagão, a actual El Jadida, uma fortaleza poderosa, que se aguentou até ao tempo do Marquês de Pombal, mas que já não fazia grande sentido, dado que o sonho de conquista de Marrocos tinha terminado à muito. Acabou por ser evacuada durante um cerco, e armadilhada. Quando os marroquinos entraram na praça accionaram as armadilhas, morrendo muitos, o que motivou que durante muitos anos não voltassem a entrar no local. Os portugueses foram levados para a Amazónia, a fim de ali se fixarem numa povoação a que chamaram Nova Mazagão.

Infante D. Henrique em Ceuta
Infante D. Henrique em Ceuta

Quanto às razões que levaram Portugal a lançar-se na tentativa de conquista, os autores enumeram várias:

Quando da conquista de Ceuta, ainda os mouros estavam instalados na Espanha, em Córdoba, e os países peninsulares consideravam-se em guerra com eles, incluindo Portugal. Assim, era legitimo levar a guerra à terra de onde eram originários, pretendendo-se punir a religião contrária e impor a cristandade através da catequese e conversão.

Portugal estava no início do seu movimento expansionista, com pendor imperialista, e pretendia conquistar os reinos de Fez e Marraquexe.

Ao instalar-se na costa marroquina, Portugal podia de forma mais eficaz proteger- se de ataques lançados a partir de lá, bem como proteger o tráfego marítimo e as costas portuguesas não só de exércitos hostis, mas também de corsários, muito numerosos na zona.

Pretendia-se também obter lá trigo, ouro e escravos, o que nunca veio a suceder, já que os marroquinos alteraram as rotas comerciais para evitar os portugueses.

Outros interesses mencionados são a abertura de oportunidades de promoção social, militar e financeira dos soldados, a pilhagem, o afastamento de Portugal dos seus cidadãos mais belicosos e a utilização das praças africanas como locais de degredo.

Para além destas razões, há quem defenda que a ocupação de praças de guerra no litoral marroquino fazia parte de uma estratégia mais ambiciosa……o cerco do Islão.

Efectivamente nesta época os portugueses dominavam a navegação no Índico, e houve planos para conquista do Egito.

A resultar, os portugueses atacariam de Marrocos para leste e do Egipto para oeste, pondo em causa o poder dos turcos, grande potência islâmica da época, que já tinham chegado à Argélia.

Tudo isto com o apoio dos vários Papas da época, que sancionavam ou não as políticas, tudo numa óptica de cruzada, de guerra contra os muçulmanos.

Texto escrito por José Manuel Roquete Abrantes.